Conheci Variações em retribuição
por ter apresentado à um amigo português o Secos e Molhados (e junto Ney).
Fiquei encantado, a performance e as letras não me eram tão estranhas, logo lembrei
dos tropicalistas e de uma estética dos anos 70 (e de um Raul com sotaque
lusitano) . Mas, para mim, António Variações ainda era uma figura anacrônica em
Portugal. De vanguarda, vanguardista, a música do cabeleireiro – assumidamente gay,
e, a primeira figura pública a morrer de AIDS em Portugal, chocava as noites em
um país cheio de tradições.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Menos dinheiro, mais qualidade
É bem verdade que a internet é democrática, é bem verdade
que por intermédio dela todos andam se expressando muito mais. E quando eu digo
em se expressar, não estou me referindo a essa terra sem dono que a rede virou,
local em que as pessoas andam se desrespeitando cada vez mais, e mais do que
isso, esquecendo-se o que é bom senso. Quando eu falo em expressões estou me
referindo às artísticas. Digo isso tendo em vista os inúmeros blogs (cof, cof)
que variam de crônicas até as poesias, das bandas de garagem, dos artistas
plásticos e etc.
E no entanto, não é por causa dessa aparente
democratização que estamos tendo acesso a mais alta produção artística de
todos os tempos, ao contrário. O grande número de informações faz com que
precisemos urgentemente de ferramentas que filtre o que é bom, fantástico, do
que é ruim, medíocre.
E é dessa necessidade que esses dois links falam sobre.
Quer dizer, eles abordam mais assuntos, mas o que me fez relacioná-los foi este
tema. O primeiro é a entrevista de André Schiffrin, editor e escritor
criador da New Press, que vem a ser uma editora corajosa: edita-se e publica-se
literatura sem visar lucro. O segundo é uma entrevista do crítico musical Tárik de Souza,
cedida à Rádio Batuta (que descobri a pouco tempo e recomendo). O objetivo da
entrevista é falar sobre a música brasileira de antes da Bossa Nova. O que vem
a ser de fato um passeio no tempo e ótimas histórias, tanto do entrevistado
como do entrevistador. Porém, acontece que o crítico se lamenta durante toda a
entrevista sobre a falta das rádios, das rádios que lançaram o Trio de Ouro,
por exemplo.
Os dois nomes concordam em praticamente os mesmos pontos:
Schiffrin diz que se Kafka escrevesse hoje, nenhuma editora iria se interessar
por ele, porque quando foi publicado pela primeira vez vendeu pouquíssimo. Hoje
em dia, nenhum editor iria se interessar justamente por isso: iria vender pouco
e não iria trazer lucro. E logo acusa a busca por dinheiro das editoras
convencionais e da Amazon como
motivos que estão matando a literatura contemporânea. Não dando chance a obras
de qualidade que se afirmam apenas com o decorrer do tempo, e preferindo sempre a publicação de livros nos formatos best-sellers, que com certeza
trazem dinheiro imediato. E é por causa dessa recusa das editoras que os escritores
estão migrando para a internet, mas como o próprio editor diz: “quando se
coloca uma coisa na internet, ela desaparece”, devido ao grande número de
informações. Apesar de Schiffrin ser utópico sobre a criação de uma legislação
que trate do mundo virtual e quanto acreditar que todos se interessam pela
Literatura, ele convence sobre a importância de um editor e mais do que isso,
de uma editora.
Na entrevista de Tárik de Souza, a editora é a rádio, uma
rádio que buscava talentos e não o dinheiro. A rádio que revelava grandes
nomes, e não optavam pelos mesmos artistas, ou pelo mesmo formato deles. Hoje
em dia, segundo ele, nas rádios vive-se a ditadura econômica. Só se ouve aquele
que tem dinheiro – e dinheiro não é a mesma coisa de talento e criatividade,
como sabemos.
Recomendo as duas entrevistas. Por estes pontos citados,
mas também porque eles falam sobre muito mais. Schiffrin é uma biblioteca (eu
quase que escrevo Wikipedia, que gafe) tamanha a quantidade de dados que guarda
em sua cabeça e com ótimos argumentos de conservar a cultura através de
investimentos em bibliotecas e etc. Enquanto que Tárik conta de uma forma
descontraída sobre a entrevista que fez com João Gilberto e o samba que compôs
com Pixinguinha. Sem dizer as canções que ele selecionou, que mereciam um texto
a parte.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
No ano passado meu playlist não
variou muito, nem houve muitos nomes consagrados... Pouca coisa tocou aqui; uns
discos do Caetano, o Recanto da Gal, o último do Vanguart, Virgem Suta e Cícero (Canções de
apartamento). 2012 foi pra mim mais visual do que auditivo.
Desde que resolvi voltar ao Folha
Neurose tenho adiado escrever aqui, seja por essa falta de novidade (e , se é possível, contato)
musical ou mesmo falta de tempo. Então já vão mais de dois meses do último post
da Rafa, e percebi; temos um bloqueio muito forte para falar de arte.
A arte, mesmo depois dos
ready-mades, é sempre posta em pedestais, em galerias, em museus. O erro de
Duchamp foi levar o urinol ao museu, e não o contrário – se bem, que, de algum
modo, resultou. Mas arte ainda é uma coisa muito inalcançável, e sua aura ainda
a mantem distante do cotidiano, de nós, humanos.
E nessa elitização, no meio dos
pedregulhos do preconceito acadêmico, vamos perdendo tanta poesia de rua, tanta
música de quintal, tanta arte doméstica...
domingo, 21 de outubro de 2012
Para começar
Começar pode ser mais complicado
do que terminar, mas creio que seja bem mais prazeroso. Começar nem sempre é do
zero, às vezes é inovar, ou reinventar.
E se é para falar em reinventar
não me vem à cabeça outros nomes a não ser Gal Costa e Caetano Veloso. A
estreia dos dois, em 1967, já foi reinvenção, uma vez que se a Bossa Nova era
genuinamente da classe média carioca, Gal e o então Caetano Velloso trouxeram a
calma melodia à paisagem da Bahia.
Mas sabemos que o álbum Domingo foi apenas um começo, um simples
começo se considerarmos o que viria depois: a Tropicália. Tropicália está um
pouco na moda agora, ganhou documentário, documentário muito bem feito. Mas não
vamos falar sobre o movimento, vamos nos lembrar apenas como a música
brasileira estava se desenhando, se consolidando de uma determinada maneira,
mas então tiveram aquela ideia, um pouco antropofágica: trazer a guitarra para
o Brasil, e não só trazê-la, mas torná-la brasileira.
Vapor Barato gravada com guitarras é uma música difícil de esquecer,
embora seja mais conhecida a versão acústica. Mas fico a pensar em quem, depois
do álbum de 1967, imaginaria que a voz doce de Coração Vagabundo cantaria aos gritos sobre indecisões tão comuns
da vida.
Mudanças são assim: há quem pense
que é trair o movimento, esquecer o passado e comer no prato que cuspiu. Acho
que mudanças que são classificadas desta forma são as não pensadas, não
estruturadas. Porque, como já dito, nem sempre mudanças é começar de novo. Às
vezes, é atribuir novos valores. Outro dia me disseram que Gal se vendeu, virou
musa e agora canta qualquer coisa. Não entendi muito bem, entendo a parte do
virou musa. É verdade que não gosto de Sua estupidez, música de Roberto Carlos que ela gravou, e também não gosto
daqueles vídeos do Fantástico da década de 80, mas entendo que uma carreira
longa não dá para ser Tropicália a vida toda.
E, se por um lado, Gal se vendeu,
imagine Caetano que depois de Baby
escreveu Odeio. Mas, não sei dizer
como, ele conseguiu este certificado: o de poder mudar, e grande parte do
público compreender – e apoiar. Acho que conseguiu isso porque não esquece de
nossa cultura ao mesmo tempo que não fecha os olhos para o que acontece no
mundo. Porque, fala sério, depois de velho, o homem começou a usar jaqueta
jeans surrada e virou cantor de rockzinho .
E depois de tantas composições e
de tantas variações, Caetano e Gal, em 2011, fizeram outro álbum em parceria.
Se fossem uma banda americana teria grandes chances de ser uma coletânea. Mas
ainda bem que há gente com coragem e criatividade, e o novo CD são de inéditas, e ainda trocaram a
sonoridade brasileira por música eletrônica e nem por isso sem identificação
com nosso povo.
O álbum Recanto pode ser bom, ou ruim. Isso depende de quem ouve. Mas fica
registrado mais uma vez a reinvenção, e mais do que isso, o prazer em produzir
e compartilhar. Gal e Caetano são exemplos da boa experimentação.
Começar, mas não do zero e somar
elementos. Isso, por acaso, me lembra o Folha Neurose.
Assinar:
Postagens (Atom)
