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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

No ano passado meu playlist não variou muito, nem houve muitos nomes consagrados... Pouca coisa tocou aqui; uns discos do Caetano, o Recanto da Gal, o último do Vanguart, Virgem Suta e Cícero (Canções de apartamento). 2012 foi pra mim mais visual do que auditivo.
Desde que resolvi voltar ao Folha Neurose tenho adiado escrever aqui, seja por essa falta de novidade (e , se é possível, contato) musical ou mesmo falta de tempo. Então já vão mais de dois meses do último post da Rafa, e percebi; temos um bloqueio muito forte para falar de arte.
A arte, mesmo depois dos ready-mades, é sempre posta em pedestais, em galerias, em museus. O erro de Duchamp foi levar o urinol ao museu, e não o contrário – se bem, que, de algum modo, resultou. Mas arte ainda é uma coisa muito inalcançável, e sua aura ainda a mantem distante do cotidiano, de nós, humanos.
E nessa elitização, no meio dos pedregulhos do preconceito acadêmico, vamos perdendo tanta poesia de rua, tanta música de quintal, tanta arte doméstica...
Só pra constar como tudo pode ser mais simples.


domingo, 21 de outubro de 2012

Para começar


Começar pode ser mais complicado do que terminar, mas creio que seja bem mais prazeroso. Começar nem sempre é do zero, às vezes é inovar, ou reinventar.

E se é para falar em reinventar não me vem à cabeça outros nomes a não ser Gal Costa e Caetano Veloso. A estreia dos dois, em 1967, já foi reinvenção, uma vez que se a Bossa Nova era genuinamente da classe média carioca, Gal e o então Caetano Velloso trouxeram a calma melodia à paisagem da Bahia.

Mas sabemos que o álbum Domingo foi apenas um começo, um simples começo se considerarmos o que viria depois: a Tropicália. Tropicália está um pouco na moda agora, ganhou documentário, documentário muito bem feito. Mas não vamos falar sobre o movimento, vamos nos lembrar apenas como a música brasileira estava se desenhando, se consolidando de uma determinada maneira, mas então tiveram aquela ideia, um pouco antropofágica: trazer a guitarra para o Brasil, e não só trazê-la, mas torná-la brasileira.

Vapor Barato gravada com guitarras é uma música difícil de esquecer, embora seja mais conhecida a versão acústica. Mas fico a pensar em quem, depois do álbum de 1967, imaginaria que a voz doce de Coração Vagabundo cantaria aos gritos sobre indecisões tão comuns da vida.

Mudanças são assim: há quem pense que é trair o movimento, esquecer o passado e comer no prato que cuspiu. Acho que mudanças que são classificadas desta forma são as não pensadas, não estruturadas. Porque, como já dito, nem sempre mudanças é começar de novo. Às vezes, é atribuir novos valores. Outro dia me disseram que Gal se vendeu, virou musa e agora canta qualquer coisa. Não entendi muito bem, entendo a parte do virou musa. É verdade que não gosto de Sua estupidez, música de Roberto Carlos que ela gravou, e também não gosto daqueles vídeos do Fantástico da década de 80, mas entendo que uma carreira longa não dá para ser Tropicália a vida toda.

E, se por um lado, Gal se vendeu, imagine Caetano que depois de Baby escreveu Odeio. Mas, não sei dizer como, ele conseguiu este certificado: o de poder mudar, e grande parte do público compreender – e apoiar. Acho que conseguiu isso porque não esquece de nossa cultura ao mesmo tempo que não fecha os olhos para o que acontece no mundo. Porque, fala sério, depois de velho, o homem começou a usar jaqueta jeans surrada e virou cantor de rockzinho .

E depois de tantas composições e de tantas variações, Caetano e Gal, em 2011, fizeram outro álbum em parceria. Se fossem uma banda americana teria grandes chances de ser uma coletânea. Mas ainda bem que há gente com coragem e criatividade, e o  novo CD são de inéditas, e ainda trocaram a sonoridade brasileira por música eletrônica e nem por isso sem identificação com nosso povo.

O álbum Recanto pode ser bom, ou ruim. Isso depende de quem ouve. Mas fica registrado mais uma vez a reinvenção, e mais do que isso, o prazer em produzir e compartilhar. Gal e Caetano são exemplos da boa experimentação.

Começar, mas não do zero e somar elementos. Isso, por acaso, me lembra o Folha Neurose.